

Sejam bem-vindos a mais uma festa do teatro!

Na arte, no mundo artístico nunca há consensos absolutos. E é disso mesmo que se trata o processo de labor criativo, de crescimento artístico. Choque, debate, recriação, dúvida, invenção, assimilação, confronto de mundos, leituras e códigos. Ninguém tem razão plena quanto à qualidade ou desprimor de uma obra de arte, ninguém pode levantar a bandeira de expert absoluto que logo, logo há-de cair perante a risada dos Deuses teatrais. As leituras extremas pecam sempre por parcialidade, arrogância e snobismo. Na arte temos de ter o espírito aberto e a alma disponível para receber novas alianças.
Novas fusões, novos futuros é o que nos tem proposto a rubrica Teatrolândia no festival Mindelact deste ano. Novas fusões entre o nosso passado ancestral e universal e o nosso património nacional de estórias e contos. Novos futuros na medida em que as crianças que se deslocam ao CCM, para ouvir as histórias narradas e interpretadas pelo místicos contadores de estórias que vieram ao festival, criam novos horizontes e enriquecem o seu imaginário particular. Foi assim que ontem a criativa contadora e intérprete de estórias do Projecto Iwa levou os meninos de Mindelo a fantásticos mundos ligados aos universos da àgua. Di oi grilid os pikinotes ouviram a estória da princesa que tendo recusado milhares de pretendentes para se casar acabou por se enamorar de três peixes provisoriamente transformados em príncipes… ou então tomaram conhecimento dos muitos pactos que os deuses da água fizeram com os homens para que esses pudessem sobreviver ao longo dos tempos.
Ainda mergulhados no Universo dos contos, o festival off de ontem teve a presença carismática do Hamadou Tandina, contador de estórias originário do Mali. Hamadou que contou com a ajuda da contadora de estória colombiana Catalina Pineda na tradução, mostrou-se um verdadeiro artesão na arte de tecer enredos e criar os estados de espírito certos para recebermos cada história. Tandina começou por perguntar se o público confiava nele, num gesto simbólico de reconhecimento por parte do público de que ele de facto é portador de um património que pertence a toda a humanidade. Os contos africanos começam por uma canção e terminam com uma lição de moral. Explicou-se pela voz de Catalina Pineda. Hamadou, recriou o ambiente das nossas infâncias e por momento transformou os adultos que assistiam ao festival off em meras crianças ansiosas para devorar cada palavra, cada estória, cada ensinamento. Disputas de mágicos e feiticeiros, alegorias e mistérios que transcendem o nosso tempo de vida. Desse pequenos ápices mágicos se faz um festival.
Mas antes de nos submergirmos no mundo mágico dos contos africanos, o palco principal do Mindelact recebeu “Jackie Star, L’Elegance et la beauté”. Um espectáculo marcado pelo inesperado, pela surpreendente falta de pudor da actriz em usar o seu corpo e insinuar sua intimidade, pela critica velada, pela critica feroz, por um exercício continuo e desesperado de comunicar com o público. Este espectáculo, mostrou mais uma vez a importância da preparação dos actores e actrizes e da identificação dos interpretes com o texto. Não existe o teatro sem actores. Parece elementar tal afirmação, mas quantas vezes os espectadores encontram apenas texto em palco. Questiono-vos. Esta peça de Jackie Star, pelo contrário, não existiria sem a actriz, sem o seu corpo, sua entrega ao acto, à desconstrução ininterrupta da sua própria personagem. Obra notável no campo da representação, expressa por percalços, catástrofes aniquiladoras, paródias sarcásticas e que mantém o público entre o riso e pasmo.
Sabiam que em Mindelo há uma varanda Baptizada de Evereste onde se bebe chá e se pode entrelaçar longas cavaqueiras madrugada adentro? Sabiam que em baixo de Evereste pode-se bebericar drinks no balcão do Titanic e petiscar pinchos de atum e pimentão? Existiria Mindelo sem as sensações e as fantasias das suas noites?
É possível o non sense em Mindelo?
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.Abraão Vicente
15/09/2011
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